Festa de CR$ 6 milhões ou a “Bacanal
de Coberville”
Festa
aconteceu no dia 3 de agosto de 1952. Cerca de 3.000 convidados da
alta-sociedade brasileira, dentre eles, os Bianchi, os Ouro Preto, os Monteiro,
os Souza Campos, os Morganti e muito mais. Dois aviões saíram do Rio de Janeiro
para levá-los à bela Paris.
A festança começa exatamente
às 21 horas, com grande queima de fogos, iluminando os jardins e os cerca de
3.000 convidados que abarrotam toda a área. A partir daí, ficção e fantasia se
misturam, de acordo com os interesses de cada um. De qualquer maneira, a festa
teria começado com 10 personalidades do “jet-set”
internacional adentrando os jardins montados em cavalos brancos, todos trazendo
uma mulher mais ou menos famosa em suas garupas, todas também fantasiadas.
Chateaubriand abre o desfile – vestido à moda nordestina – trazendo a famosa
locomotiva internacional e estilista de sucesso, Elsa Schiappareli, às costas,
com uma fantasia que a imprensa presente chama de “imponente e misteriosa”. A
famosa manequim brasileira Danuza Leão (ironicamente, a futura senhora Samuel
Wainer e irmã da também futura estrela da música popular brasileira, Nara Leão)
era outra que podia ser avistada na garupa de outra personalidade. E assim por
diante.
Um burburinho entre os
convidados e outra aparição galvaniza a atenção. Era a suposta senhora Jacques
Fath (o qual trajava somente uma calça de veludo e, como complemento, uma
peruca de índio), Aimée de Heeren, belíssima em seus 40 e poucos anos, que
chega como uma visão, fantasiada de rainha inca, sentada em uma liteira carregada
por quatro negros vestidos a la Debret. Mais tarde se saberia que Aimée foi
amante durante anos do próprio Chateaubriand e, especula-se, do próprio Getúlio
Vargas.
Após o desfile propriamente dito, Severino Araújo e
sua Orquestra Tabajara iniciam o show artístico, tocando todos os ritmos
brasileiros em moda, além de acompanhar a performance dos cantores brasileiros
que também se apresentam, Elisete Cardoso, Ademilde Fonseca e Jamelão; e Zé
Gonzaga, cantor nordestino muito em voga, empolga o distinto público presente
com uma seqüência de ritmos nordestinos, cururu, baião, frevo, xaxado e outros.
O baile somente acaba às oito horas da manhã seguinte, ainda apinhado de gente.
Listar os
convidados famosos seria impossível. Vê-se entre eles Orson Welles, bêbado como
sempre, dançando com a atriz Ginger Rogers, ou seja, esquerda e direita de
Hollywood se congratulando. Também marcam presença Clark Gable, Danny Kaye,
Paulete Godard, ex-senhora Charles Chaplin, Claudete Colbert, a ainda belíssima
Gene Tierney, Merle Oberon, a sensação atual do cinema francês, Micheline
Presle e muitos mais. Jean Louis Barrault brilha sobremaneira, dançando horas
seguidas, especialmente o frevo, inclusive com uma sombrinha aberta como
qualquer passista recifense.
Dona Darcy
Vargas e Alzirinha, provavelmente prevendo o temporal que se avizinhava,
comportaram-se mais do que discretamente, permanecendo sentadas à beira da
pista durante quase toda a festa. Quando algum convidado chegava até sua mesa,
cumprimentavam-nos com elegância e discrição, evitando, ao máximo, porém,
chamar a atenção.
Mas, de nada adiantou; em editorial na primeira
página denominado “AFRONTA”, ao lado das notícias da festa em que se
destacam termos como “uma completa loucura”, “dança nupcial dos índios
do Mato Grosso”, “orgia” etc., o jornal Tribuna da Imprensa (leia-se
Carlos Lacerda) trata o evento em termos que não deixavam dúvidas sobre seu
intento:
“Cada qual desce do bonde como quer. Mas, realmente,
os telegramas que hoje descrevem a farra em Paris, com a indulgente presença da
mulher do presidente da República e de sua encantadora filha, ultrapassam todas
as medidas e constituem uma afronta às dificuldades com que luta o povo francês
e à desgraça que aflige o povo brasileiro.
‘O pai dos pobres’ não é capaz de explicar com que
dólares foram custeados esses aviões especiais, essas cabaças e inúbias, esses
pássaros tropicais, essa revoada de aventureiros e aventureiras que
transportaram a Paris para participar da dispendiosíssima bagunça no castelo de
um novo-rico. Quem forneceu o câmbio? Foi câmbio oficial ou câmbio negro?
Isso é que merece um inquérito. Vejamos se alguém
tem coragem de perguntar, frontalmente, ao chefe do governo, quem autorizou a
exportação desses dólares.”
O presidente Getúlio Vargas, mais uma vez, fora
atingido no fígado pelo terrível oponente, prognosticando um combate mortal a
partir deste acontecimento.
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