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terça-feira, 9 de abril de 2013

DÉCADA DE 1950, QUANDO A FEICIDADE PARECIA BATER À PORTA DO BRASIL - BLOG



Festa de CR$ 6 milhões ou a “Bacanal de Coberville”
Festa aconteceu no dia 3 de agosto de 1952. Cerca de 3.000 convidados da alta-sociedade brasileira, dentre eles, os Bianchi, os Ouro Preto, os Monteiro, os Souza Campos, os Morganti e muito mais. Dois aviões saíram do Rio de Janeiro para levá-los à bela Paris.


A festança começa exatamente às 21 horas, com grande queima de fogos, iluminando os jardins e os cerca de 3.000 convidados que abarrotam toda a área. A partir daí, ficção e fantasia se misturam, de acordo com os interesses de cada um. De qualquer maneira, a festa teria começado com 10 personalidades do “jet-set” internacional adentrando os jardins montados em cavalos brancos, todos trazendo uma mulher mais ou menos famosa em suas garupas, todas também fantasiadas. Chateaubriand abre o desfile – vestido à moda nordestina – trazendo a famosa locomotiva internacional e estilista de sucesso, Elsa Schiappareli, às costas, com uma fantasia que a imprensa presente chama de “imponente e misteriosa”. A famosa manequim brasileira Danuza Leão (ironicamente, a futura senhora Samuel Wainer e irmã da também futura estrela da música popular brasileira, Nara Leão) era outra que podia ser avistada na garupa de outra personalidade. E assim por diante.

Um burburinho entre os convidados e outra aparição galvaniza a atenção. Era a suposta senhora Jacques Fath (o qual trajava somente uma calça de veludo e, como complemento, uma peruca de índio), Aimée de Heeren, belíssima em seus 40 e poucos anos, que chega como uma visão, fantasiada de rainha inca, sentada em uma liteira carregada por quatro negros vestidos a la Debret. Mais tarde se saberia que Aimée foi amante durante anos do próprio Chateaubriand e, especula-se, do próprio Getúlio Vargas.

Após o desfile propriamente dito, Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara iniciam o show artístico, tocando todos os ritmos brasileiros em moda, além de acompanhar a performance dos cantores brasileiros que também se apresentam, Elisete Cardoso, Ademilde Fonseca e Jamelão; e Zé Gonzaga, cantor nordestino muito em voga, empolga o distinto público presente com uma seqüência de ritmos nordestinos, cururu, baião, frevo, xaxado e outros. O baile somente acaba às oito horas da manhã seguinte, ainda apinhado de gente.

Listar os convidados famosos seria impossível. Vê-se entre eles Orson Welles, bêbado como sempre, dançando com a atriz Ginger Rogers, ou seja, esquerda e direita de Hollywood se congratulando. Também marcam presença Clark Gable, Danny Kaye, Paulete Godard, ex-senhora Charles Chaplin, Claudete Colbert, a ainda belíssima Gene Tierney, Merle Oberon, a sensação atual do cinema francês, Micheline Presle e muitos mais. Jean Louis Barrault brilha sobremaneira, dançando horas seguidas, especialmente o frevo, inclusive com uma sombrinha aberta como qualquer passista recifense.

Dona Darcy Vargas e Alzirinha, provavelmente prevendo o temporal que se avizinhava, comportaram-se mais do que discretamente, permanecendo sentadas à beira da pista durante quase toda a festa. Quando algum convidado chegava até sua mesa, cumprimentavam-nos com elegância e discrição, evitando, ao máximo, porém, chamar a atenção.

Mas, de nada adiantou; em editorial na primeira página denominado “AFRONTA”, ao lado das notícias da festa em que se destacam termos como “uma completa loucura”, “dança nupcial dos índios do Mato Grosso”, “orgia” etc., o jornal Tribuna da Imprensa (leia-se Carlos Lacerda) trata o evento em termos que não deixavam dúvidas sobre seu intento:

 

“Cada qual desce do bonde como quer. Mas, realmente, os telegramas que hoje descrevem a farra em Paris, com a indulgente presença da mulher do presidente da República e de sua encantadora filha, ultrapassam todas as medidas e constituem uma afronta às dificuldades com que luta o povo francês e à desgraça que aflige o povo brasileiro.

‘O pai dos pobres’ não é capaz de explicar com que dólares foram custeados esses aviões especiais, essas cabaças e inúbias, esses pássaros tropicais, essa revoada de aventureiros e aventureiras que transportaram a Paris para participar da dispendiosíssima bagunça no castelo de um novo-rico. Quem forneceu o câmbio? Foi câmbio oficial ou câmbio negro?

Isso é que merece um inquérito. Vejamos se alguém tem coragem de perguntar, frontalmente, ao chefe do governo, quem autorizou a exportação desses dólares.”

O presidente Getúlio Vargas, mais uma vez, fora atingido no fígado pelo terrível oponente, prognosticando um combate mortal a partir deste acontecimento.

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