É difícil acreditar que Danuza Leão fez tanta coisa em apenas uma encarnação.
É a primeira conclusão a que se chega ao fim de suas memórias, Quase tudo, que a Companhia das Letras distribui hoje às livrarias. A segunda é a incrível capacidade que ela mantém de renovar-se, mudar de vida como quem troca de vestido ou, no caso especialíssimo dela, como quem dá um pulo em Paris. Uma dessas viradas, no entanto, foi especial e, se ela não acontecesse, você certamente não estaria lendo esse comentário. Um belo dia, folheando O livro dos insultos, uma coleção de artigos de H. L. Mencken que Ruy Castro organizou e traduziu, Danuza encontrou uma sacada que mais uma vez mudou sua vida: não se deve ensinar uma criança a escrever, mas a pensar, porque quem pensa escreve. Ela então escreveu um manual de procedimento que vendeu horrores (Na sala com Danuza), virou colunista de jornal e, agora, memorialista.
É a primeira conclusão a que se chega ao fim de suas memórias, Quase tudo, que a Companhia das Letras distribui hoje às livrarias. A segunda é a incrível capacidade que ela mantém de renovar-se, mudar de vida como quem troca de vestido ou, no caso especialíssimo dela, como quem dá um pulo em Paris. Uma dessas viradas, no entanto, foi especial e, se ela não acontecesse, você certamente não estaria lendo esse comentário. Um belo dia, folheando O livro dos insultos, uma coleção de artigos de H. L. Mencken que Ruy Castro organizou e traduziu, Danuza encontrou uma sacada que mais uma vez mudou sua vida: não se deve ensinar uma criança a escrever, mas a pensar, porque quem pensa escreve. Ela então escreveu um manual de procedimento que vendeu horrores (Na sala com Danuza), virou colunista de jornal e, agora, memorialista.
Boa memorialista, por sinal. Quase tudo (título que nasceu de uma sugestão de Millôr Fernandes, e é de se perguntar o que ficou de fora) é um livro equilibrado, com partes bem distribuídas de plumas e chumbo. E revelações, muitas revelações, algumas das quais eram segredos que apenas seu analista conhecia. Como os detalhes de seu casamento com o cronista e compositor Antonio Maria. Danuza sempre se recusou a falar no assunto, mas, no livro, conta tudo, tintim por tintim, no já célebre capítulo 5. Ninguém me ama e Menino grande, duas famosas canções de dor-de-cotovelo de Maria, perdem feio para a realidade.
O triângulo Samuel Wainer, Danuza Leão e Antonio Maria foi um bochicho célebre da imprensa brasileira e da vida mundana carioca dos anos 60: ela trocou o patrão, Samuel, todo-poderoso dono da Última Hora, pelo colunista do jornal, Maria, o qual, se estava longe de ostentar um físico de galã (era gordo, muito gordo, e mulato de pele clara), era um sedutor dos mais perigosos: ''Antônio Maria sabia ouvir: qualquer problema meu, fosse minha insatisfação com a babá dos meus filhos, fosse uma rusga com meu pai, ele tinha todo o tempo do mundo não só para escutar como para discutir, sugerir, às vezes aconselhar. Era exatamente o que eu não tinha de Samuel, era exatamente do que eu precisava - e Maria sacou''.
Danuza assinou o desquite e viveu três anos com Maria (que conseguiu o que parecia impossível, parar de beber), em apartamentos separados, para não perder a guarda dos filhos. Cardíaco, Maria teve um infarto, e, como se fosse uma seqüela, aumentou a intensidade de seus ciúmes. Danuza, que acredita que as pessoas hoje não amam de maneira tão intensa como antigamente, detalha no livro alguns momentos críticos da relação:
''As 24 horas do meu dia eram controladas; eu não podia dizer que gostava de uma música porque ela fazia parte de um passado do qual eu não tinha o direito de me lembrar. (...) Estávamos no quarto assistindo ao noticiário quando levantei para ir ao banheiro. Passei pela frente da tevê em trajes íntimos, à vontade, e ele fez uma cena, como se eu estivesse me exibindo para o locutor do programa. Outra vez, estávamos abraçados, em pé, na sala, onde havia um espelho, mas ele viu a mim, de costas, abraçando um homem. A visão foi tão insuportável que ele me empurrou para longe. Eu estava abraçando um homem, e não importava se esse homem era ele. Comecei a sentir medo''.
A separação era inevitável. Maria teve outro infarto e, dali a meses, o fatal. Danuza não estava mais no Brasil: devido ao golpe de 1964, Samuel deixou o país, e ela e os filhos foram se juntar a ele no exílio de Paris. Fim de caso.
Mas nem tudo é tristeza nas memórias. Longe disso: ao relembrar sua trajetória incomum, Danuza transporta o leitor para a Paris dos anos 50, onde ela foi manequim do costureiro Jacques Fath, desfilou vestida de Maria Bonita na garupa de um cabalo nos salões do castelo do barão de Coberville e teve - tudo isso aos 17 anos - um tórrido romance com Daniel Gelin (ator de La ronde, de Max Ophüls) um viciado barra-pesada que aplicou a namorada em heroína (felizmente, aconselhada por Vinicius de Moraes, Danuza caiu fora a tempo). Também volta-se ao Rio de praias vazias, poucos carros e coquetéis onde se chegava às sete, e às nove encarava-se um picadinho. O mesmo prato era servido na boate Vogue, junto do frango à Kiev e uma espécie de filé de frango enrolado como se fosse um grande croquete, com manteiga derretida como recheio - quem não conhecia a bomba, ao usar a faca, respingavasse todo de gordura. ''O Rio mudou, sem dúvida, mas sem essa de saudosismo. Não posso mais andar com meu relógio de ouro em Ipanema? E daí? (Aliás, relógio de ouro é maneira de falar, não conheço coisa mais brega)''.
Como esta última, há várias digressões no livro, das quais a autora se vale para exercitar seu estilo de humor duro. Há também, especialmente para as novas gerações, pequenos informes da história do Brasil e do mundo. Nos tempos em viveu com Samuel Wainer, Danuza foi testemunha privilegiada - mas sem entender muito o que se passava, ao contrário de hoje, em que lê tudo sobre política (''não supoooooorto o governo Lula'') - da crise que levou ao suicídio de Getúlio, da construção de Brasília e do golpe que depôs Jango. De lambujem, foi à China e posou ao lado de Mao Tsé-tung, e apareceu, sem dizer uma só palavra, no clássico Terra em transe, de Glauber Rocha.
Na década de 80, ela passou oito anos - lamenta, mas não se arrepende - como directrice das boates Régine e Hippopotamus, na balada de sexo, drogas e rock-and-roll: ''A mim, felizmente, a droga não pegou; dependendo do namorado da época - e do seu poder de persuasão -, acontecia às vezes de eu entrar numas de cocaína. Tentei a maconha, mas odiei. Ficar feito uma débil mental, rindo de nada, realmente não é uma situação que me seduza''. O que bateu de fato foi uma seqüência de tragédias que teve de enfrentar: a descoberta de que a irmã Nara tinha um tumor cerebral; o suicídio do pai, o advogado Jairo Leão; e a morte do adorado filho Samuca. Nessa fase, Danuza passou a beber mal e pesado - vodca, uísque, conhaque e, esperando a hora do analista, até cachaça no balcão do botequim, roçando cotovelos com outros bebuns. Lembrar e contar tudo isso foi difícil, principalmente escrevendo na primeira pessoa (o que ela não havia feito antes), mas valeu tanto quanto anos a fio de terapia. Hoje, a exemplo do que fará em sua próxima coluna na Folha, Danuza aconselha todo mundo a escrever.
Foi o que ela, corajosamente, levou a cabo. Ninguém está aqui para contar o fim do filme, mas o derradeiro capítulo é surpreendente - mesmo para quem se chama Danuza Leão. Para não contar muito, digamos que ela continua em atividade. A maior das surpresas, entretanto, está reservada para a última linha: a revelação de sua idade. Se você não resistir de curiosidade, passe na livraria mais próxima. E depois compre o livro - que vale a grana investida.
Trecho
“Na verdade, nunca me achei bonita; não que me achasse feia, apenas normal, e estava tão interessada em viver minha vida que essa questão nunca me preocupou. Mas sou obsessiva com meu peso e, se estiver comum quilo acima dos meus 58, fico dentro de casa em recesso, sem me olhar no espelho, até poder usar meus jeans Levi's 29. Entrar no bisturi para mim é uma coisa banal, tão banal como ir ao cabeleireiro, e sou capaz de entrar num consultório de um cirurgião para perguntar se existe algum procedimento de que ainda não ouvi falar. Só lamento ter, algumas vezes, caído em mãos menos cuidadosas, mas para tudo tem remédio. Talvez por nunca ter me achado bonita, não passei pela fase de sentir que estavam olhando menos para mim. Os homens continuam me olhando; talvez menos, mas continuam, o que adoro” |
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