Foi em
1951 que dona Candinha Silveira, esposa de Joaquim Guilherme da Silveira,
organizou um desfile beneficente no Copacabana Palace com os vestidos da
Fábrica Bangu. O sucesso do desfile
ajudou não apenas a aumentar o prestígio dos produtos da fábrica, mas também
começou a popularizar o uso do algodão nas roupas. Naquele ano, o
estilista francês Jacques Fath visitou a fábrica, desenhou modelos com os
tecidos e organizou o desfile de apresentação do algodão brasileiro em Paris.
A festa,
realizada no ano seguinte, aconteceu no castelo de Coberville, de propriedade
de Fath, e contou com a presença de
astros de Hollywood, como Clark Gable, Ginger Rogers e Orson Welles. A
comitiva brasileira, que viajou num avião fretado pela Bangu, teve como algumas
de suas maiores atrações Darcy Vargas, esposa do então presidente Getúlio
Vargas, e o homem forte da mídia naqueles tempos, Assis Chateaubriand, que na
festa à fantasia realizada no castelo se vestiu de jagunço e andou de jegue
pelos jardins do palácio. A trilha sonora ficou a cargo de Jamelão e Elizeth
Cardoso, acompanhados da Orquestra Tabajara.
Fath veio ao Brasil, contratado pela companhia, e realizou desfiles com os tecidos da Bangu no Rio, São Paulo e em Salvador, fortalecendo mais ainda a marca da fábrica. Surgiam os concursos “Miss Elegante Bangu”, no Copacabana Palace e transmitidos ao vivo pela Rádio Nacional, com grande cobertura da imprensa, principalmente dos “Diários Associados” e de “O Globo”, jornal no qual começava a se projetar Ibrahim Sued, grande divulgador dos desfiles. A frase do jornalista Manuel Bernardes Müller, o folclórico Maneco Müller, conhecido por suas tiradas espirituosas, retrata bem o espírito dos pioneiros desfiles da Bangu: “Assim, aqueles desfiles foram, através da divulgação nos rádios, jornais e revistas, atingir o alvo desejado, ou seja, a classe média ascendente do período pós-guerra. E daí todo o mundo passou a conhecer e valorizar os tecidos Bangu e a moda carioca, pois a Bangu é cem por cento carioca, uma personagem da cidade do Rio de Janeiro”.
Os
desfiles Bangu tinham uma finalidade: divulgar a qualidade do algodão e da
tecelagem brasileiras. E funcionou: os tecidos Bangu foram top por muitos e
muitos anos, a fábrica chegou a ser a maior exportadora têxtil até os anos 60 e
a maior produtora de jeans. Só começaram a perder terreno porque o maquinário
ficou ultrapassado, até que encerrou suas atividades em 2005. Antes disso teve
seu prédio tombado pelo Patrimônio Histórico do Rio de Janeiro,
transformando-se posteriormente num shopping-center.
Graças à
perspicácia e ao espírito festeiro de Terêncio Romita, paraguaçuense que se
tornou numa figura folclórica dos meios sociais da época dos “Anos Dourados”,
os famosos desfiles Bangu, aconteceram no Clube Paraguaçuense e,
posteriormente, no novíssimo salão de bailes do PTC, no final dos anos 50 e, na
década de 60, trazidos pelo Romita, com o apoio do Rotary Clube da cidade,
sendo aqui realizados por vários anos seguidos. O “Desfile Bangu”, com modelos
confeccionados pelo famoso costureiro José Ronaldo, antecedeu Denner, Clodovil
e outros participantes do mundo da costura no Brasil. Os desfiles eram
realizados de maneira sui-gêneris: o costureiro José Ronaldo enviava o desenho
dos modelos e a fábrica Bangu os tecidos. As costureiras de Paraguaçu confeccionavam
as roupas, que eram pagas pelas modelos que, após o desfile, ficavam com o
vestido.
Quando
chegava a época dos desfiles Bangu os meios sociais paraguaçuenses entravam em
polvorosa. As meninas-moças sonhavam em desfilar os modelos de José Ronaldo, e
eram escolhidas pelo promotor do evento, o Romita. Inclusive, a disputa de uma
vaga de “modelo” de José Ronaldo era tão acirrada, que corriam boatos na época
de que uma indicação da menina por uma pessoa influente da cidade ou por um
rotariano era sempre bem-vinda pelos organizadores do evento.
Os bailes eram produzidos com muito esmero e as mulheres da sociedade vestiam
modelos da última moda de São Paulo e Rio de Janeiro, copiados nas poucas
revistas de moda, e das atrizes e famosas que apareciam nas páginas de “O
Cruzeiro”.
Para animar a festa, eram escolhidas as melhores orquestras da região. Pelo palco do bailes do “Desfile Bangu” passaram orquestras como a de Nelson de Tupã, Antenor Martins, Continental de Jaú, Laércio de Franca e outras. Ao som de músicas de Ray Conniff e da nova onda musical surgida no final dos anos 50, o “rock and roll”, e dos indefectíveis boleros, a festa da Bangu atravessava a madrugada e terminava quando o dia já estava amanhecendo. Os bailes eram concorridíssimos e mobilizava toda a sociedade paraguaçuense.
As
apresentações do desfile eram feitas pelo próprio Romita, que criava frases e
motivações em sua locução, para animar a festa. Inesquecível a frase que ele
usou, em um dos últimos “Desfile Bangu”, para apresentar as meninas: “Pela
passarela, nesta época dos estampados corajosos e das bolas redondas, as lindas
garotas de Paraguaçu desfilarão os modelos do costureiro de fama internacional:
Josééé Ronaldo”.
Os bailes “Desfile Bangu” eram a glória!
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