Na
semana passada eu li um livrinho bastante interessante chamado “O Brasil tem
Estilo?”, de Ruth Jofilly, lançado pela editora SENAC em 1999. Juntando
depoimentos, textos literários e matérias jornalísticas, a autora faz uma
pequena reflexão sobre o mundo da moda brasileira, conta um pouco de como a
moda surgiu no Brasil e traça perspectivas para o futuro.
Um
dos trechos mais legais do livro é a transcrição de uma crônica de Nelson
Rodrigues intitulada “A inteligente e a elegante”, retirada do livro O
Remador Ben-Hur, de 1996. Nessa crônica, ele descreve o encontro da
escritora Clarice Lispector com Teresa de Sousa Campos, na época uma das dez
mulheres mais elegantes do país. Clarice, que, além de escritora, também
trabalhava como colaboradora da revista Manchete, no final da década de 60, é
escalada para entrevistar Sousa Campos. Insatisfeita com a tarefa, deixou
gravado um depoimento que diz muito sobre como o meio intelectual vê a moda:
“A
mulher mais elegante não me interessa. (…) Há problemas mais sérios do que a
moda, individuais ou não individuais. Queiram os céus que Teresa não seja
apenas o primeiro figurino do país. (…) É que o Brasil precisa de muito, e não
precisa nada de primeiro figurino”.
Em
sua crônica, Nelson rebate de forma genial as opiniões de Clarice:
“Séra
que, para Clarice, a ‘elegância’ é um defeito? Será que cada um de nós se deve
irritar com ‘a mais elegante’? Será que o justo, o certo, o correto, o nobre é
‘não ser elegante’? E se fosse ‘a menos elegante’ alguém ganharia com isso? (…)
Escreve minha amiga Clarice que ‘há coisas mais importantes’. Claro. Sempre há
‘coisas mais importantes’ do que escrever romances, por exemplo. Somos uma
terra de analfabetos. Alguém poderia perguntar: ‘Por que escrever romances que
a maioria de analfabetos não vai ler’? Todos nós, intelectuais, deveríamos
estar construindo escolas ou, não sei se na pior ou melhor das hipóteses,
ensinando o que sabemos.
“Por
que a ‘pessoa’, entre aspas, não pode se vestir, e cheirar bem, e ser bonita,
por quê? A pessoa tem que andar de tamancos, e pôr as mãos nas cadeiras, ou
cuspir em quem passa por baixo? (…) Mas vamos admitir que a elegância seja uma
limitação. Mas as mal vestidas também só andam mal vestidas e nada mais. O
simples fato de andar suja cheirando mal nunca fez uma heroína, uma Joana
D’Arc, uma Bernadete ou uma madame Curie.”
E
hoje, mais de 40 anos depois, o estigma do supérfluo persiste. Mas por que será
que a futilidade, a frivolidade, o supérfluo incomodam tanto?
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